Roteiro de dois dias para descobrir Santarém: A capital do gótico 

Ao longo dos séculos, Santarém foi um ponto estratégico militar, político e religioso. Foi habitada por romanos, visigodos e muçulmanos, até ser conquistada por D. Afonso Henriques em 1147, num dos episódios mais célebres da Reconquista. A partir daí, tornou-se uma das cidades preferidas dos reis portugueses, palco de cortes e decisões importantes. Hoje, a capital do gótico em Portugal continua a ser reconhecida como um destino cultural e gastronómico de grande riqueza.

Santarém foi residência de vários monarcas e local de realização de cortes durante a Idade Média, desempenhando um papel central na administração do reino. Nos séculos seguintes, a cidade manteve relevância regional, embora tenha perdido algum protagonismo nacional. Ainda assim, preservou um património arquitetónico notável, sobretudo religioso, que hoje constitui um dos seus maiores atrativos. 

Em dois dias é possível descobrir o essencial deste destino cheio de carácter, num roteiro que combina cultura, sabores e momentos de introspecção, sempre ao ritmo tranquilo que a cidade inspira. 

Dia 1: Miradouros, igrejas e sabores do Ribatejo

Começe a sua visita no Jardim das Portas do Sol, o miradouro mais emblemático de Santarém, onde a vista sobre o Tejo ajuda a perceber a importância estratégica do planalto ao longo da história. A partir daqui, siga a pé para a Igreja do Santíssimo Milagre, recentemente destacada graças a Santo Carlos Acutis, jovem canonizado em setembro de 2025, que nos seus últimos anos de vida a visitou, manifestando profunda admiração pelo milagre eucarístico ali venerado, integrando-o no seu conhecido trabalho de catalogação dos milagres eucarísticos pelo mundo. 

Continue pelas ruas históricas até à Igreja da Graça, um dos melhores exemplos do gótico português e local onde repousa Pedro Álvares Cabral. A poucos minutos, aproveite e conheça a Casa Pedro Álvares Cabral/Casa do Brasil, que recorda a ligação familiar do navegador à cidade e ajuda a compreender o papel de Santarém na época dos Descobrimentos.

Visite depois a Torre das Cabaças, um dos símbolos mais singulares da cidade. Ergue‑se no Largo do Seminário como testemunho da antiga Casa da Câmara. Foi construída no século XV e destaca‑se pelo curioso conjunto de oito cabaças de barro que coroam o campanário, elementos sonoros usados para marcar as horas de forma ruidosa e popular, o que lhe valeu o apelido de “Torre do Relógio”. Para além da sua função cívica, a torre integra hoje o Museu do Tempo, oferecendo aos visitantes uma viagem pela história da relojoaria e pela evolução dos mecanismos de medição temporal. É um marco arquitetónico que combina engenho, tradição e um certo humor scalabitano, contribuindo muito para o charme histórico do centro de Santarém.

Para almoço, a Taberna Ó Balcão é uma excelente escolha, com uma abordagem contemporânea à gastronomia ribatejana. Dedique a tarde a visitar a Sé Catedral de Santarém e o Museu Diocesano, que reúne uma notável coleção de arte sacra. Passe também na Igreja de Santa Maria da Marvila, famosa pelos seus bonitos azulejos seiscentistas, antes de caminhar até ao Miradouro de São Bento, menos conhecido mas com uma vista magnífica sobre o Tejo e os campos do Ribatejo.

Termine o dia a passear pelo centro histórico, descobrindo praças e ruas como a Rua Serpa Pinto que abriga comércio local e tesouros como a livraria Aqui à Gato. Para jantar, a Casa dos Torricados não decepciona, mas quem preferir algo mais internacional, pode optar pelo AMassa, restaurante com um excelente bar de cocktails e gastronomia italiana de excelência.

À noite, hospede-se n´A Casa Brava, um alojamento cheio de charme. Ideal para descansar com conforto.

Dia 2: História, mercado e arte urbana

Começe o segundo dia no Museu Municipal, onde encontrará exposições dedicadas à arqueologia, etnografia e história local. Aproveite ainda para visitar a Igreja de São João de Alporão, integrada no museu e um excelente exemplo da transição entre o românico e o gótico. Continue até ao Mercado Municipal, um bom local para observar a vida quotidiana e provar produtos da região.

Passe depois pelo Convento de São Francisco de Santarém, um dos melhores exemplares do gótico mendicante em Portugal. Foi fundado em 1242 por D. Sancho II, e tem passado, nas últimas décadas por extensas obras de restauro, após um incêndio em 1940.

Ao almoço, o Restaurante Central Santarém é perfeito para quem aprecia boa comida. De tarde, visite a Fundação Passos Canavarro – Casa Museu, um dos espaços culturais mais marcantes de Santarém, instalada num solar histórico que combina memória familiar, património arquitetónico e dinamização artística. A casa, ligada à figura do escritor e diplomata Passos Canavarro, preserva um acervo que atravessa séculos, reunindo mobiliário, pintura, escultura e documentos que testemunham a vida intelectual da região. Para além da dimensão museológica, o espaço afirma‑se como um centro vivo de cultura, acolhendo exposições temporárias, conferências, residências artísticas e iniciativas que aproximam a comunidade do património scalabitano.

Antes de terminar o dia, dedique algum tempo à arte urbana da cidade. Descubra alguns dos murais coloridos e a belíssima obra “Poupa”de Bordalo II, uma escultura da ave símbolo do Ribatejo. Criada a partir de materiais reciclados, esta peça que pode ser apreciada na Rua 1º de Dezembro, traz um forte impacto visual ao centro urbano e chama a atenção para as questões ambientais através da arte.

Finalize o dia passeando num dos jardins da cidade, apreciando a sua atmosfera tranquila e mergulhando na essência do Ribatejo, um território que continua a surpreender quem o percorre. 

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