Primavera Impressionista

fullsizeoutput_571f

Um raio de sol iluminou o quarto, forçando-me a abrir os olhos.

Ensonada fiquei a olhar para os reflexos que a luz deixava na parede. Era uma coisa tão simples, mas tão bonita…

Ouvi os passarinhos a cantar e uma alegria quase infantil apoderou-se de mim. O Inverno tinha sido como um longo, escuro e frio rastejar em direção ao sol, mas finalmente a Primavera chegara e, com todos os seus clichés, prometia salvar os nossos espíritos sombrios e tristonhos da escuridão invernal.

 

  — Acorda — sussurrei-lhe ao ouvido

  — Já amanheceu?

  — Sim. Temos de ir. O mais belo jardim do mundo espera por nós! Comprei os bilhetes para o primeiro comboio da manhã e não o quero perder.

 

O sol agora enchia completamente o quarto.

 

  — Sinto-me tão bem! – disse-lhe eu, enquanto saltava da cama.

  — Essa sensação de felicidade é só a dopamina que aumenta com a primavera… Sabias que é por isso que tantas pessoas se apaixonam nesta altura do ano?

  — Fascinante teoria, mas agora levanta-te por favor, temos de ir!

 — Não é teoria é ciência! Durante a primavera há muitos estímulos novos que ativam o cérebro e aumentam a dopamina. Há mais cor, novos cheiros, as pessoas usam menos roupa… tudo isso torna-nos mais suscetíveis ao amor.

  — Bom, então estou a ver que tiveste muita sorte de me ter conhecido na Primavera — disse-lhe eu piscando o olho.

 

Quando saímos de casa, soprava um vento fresco que me fez apertar bem o casaco, mas o céu estava completamente azul e já se percebia que o dia ia ser quente.

 

Paramos para tomar o pequeno almoço numa pastelaria próxima e sentados na esplanada, com o café na mão, discutimos o nosso plano, animados com a perspetiva de passar o dia num dos mais famosos jardins de França. Comemos rápido e assim que nos levantamos, três pardalitos ocuparam o nosso lugar, aproveitando as migalhas que tinham caído das baguetes que compramos para levar.

 

Seguimos rápido para a estação de Paris Saint-Lazare e apanhamos sem dificuldade o comboio para Vernon – Giverny.

 

Durante a viagem demos por nós a falar sobre tudo e sobre nada e em menos de uma hora, sem eu sequer dar por isso, chegamos a Vernon.

 

O nosso destino final era a Casa e os Jardins do pintor Claude Monet, um dos fundadores da pintura impressionista francesa. Para chegar lá ainda precisávamos de apanhar o Le Petit Train Givernon, um comboio turístico que antes de chegar a Giverny e à propriedade que pertenceu a Monet, dá uma volta por Vernon.

 

Como ainda faltavam 35 minutos para o pequeno comboio partir, resolvemos explorar um pouco por nossa conta.

 

Descobrimos que Vernon é uma vila pequenina, mas cheia de charme. Seguindo as placas, a partir da estação, rapidamente alcançamos a praça principal, onde todas as lojas pareciam terminar em “erie” — Boulangerie, Patisserie, Boucherie, Fromagerie, Épicerie

 

Não resistimos a comprar croissants quentinhos, acabados de sair do forno, na patisserie, para comer durante o caminho até Giverny.

 

A viagem de 20 minutos foi muito agradável. Passou (sem parar) por uma bonita igreja, por um antigo moinho e por um castelo — o Château des Tourelles.

 

Giverny pode ficar apenas a uma hora de Paris, mas parece que está a cem anos de distância no tempo. Os edifícios medievais, os riachos que serpenteiam por campos onde pasta o gado, as vinhas… Tudo parece saído de um quadro do século XIX. Consigo perceber porquê o Mestre impressionista se apaixonou pela região e decidiu morar ali.

 

fullsizeoutput_5720

“O meu desejo é ficar sempre assim, a morar tranquilamente num canto da natureza”

– Claude Monet

 

Foi em 1883, que Claude Monet, se mudou com toda a sua família, para a casa que agora aparecia à nossa frente.

 

Imediatamente avistamos os jardins, que era aquilo que, efetivamente nos tinha trazido até ali. Monet considerava-os “a sua mais bela obra de arte” e depois de os ver só podíamos concordar.

 

Do mesmo modo que os seus quadros, aqueles jardins transformaram-se num meio de auto-expressão do artista, um meio no qual ele trabalhou por mais de 40 anos.

 

Parte da sua inspiração veio de uma tendência popular na época — o chamado “Japonisme”. Muitas das suas plantas favoritas eram de origem japonesa, e ele colecionava gravuras de Hiroshige – o que quase de certeza inspirou a ponte em arco que ele mandou construir sobre o seu lago de nenúfares e que hoje é uma das maiores atrações dos jardins.

 

Durante a visita, nós caminhamos por entre árvores bem cuidadas e canteiros coloridos. Havia uma forte sensação de déjà vu que apenas podia ser explicada por estarmos a olhar para algo que já tínhamos visto muitas vezes nas paredes de museus como o Musée de l’Orangerie, no Jardin Tuleries. A diferença era que agora nós próprios estávamos dentro da obra do grande mestre. Tínhamos nos transportado até lá.

 

Comparamos e admiramos a realidade versus a ficção que resultou das pinceladas impressionistas.

 

Monet movia a tinta pela tela em traços, pontos, manchas e linhas sinuosas, imitando a forma como a luz interagia com a paisagem. Aplicava tinta espessa, tão espessa que criava sombras e aplicava tinta fina, tão fina que se conseguia ver a tela em baixo. Era esse contraste de textura, pinceladas e cores que tornavam as suas pinturas tão vivas e com tanto movimento.

 

As cores e texturas nas pinturas de Monet mudam dependendo de quão perto ou distante a pessoa está da tela. E o mesmo acontece com os seus jardins. As flores estão dispostas, lado a lado, com cores contrastantes ou harmoniosas: há laranjas com amarelos, vermelhos com rosas, azuis com lilases ou brancos com outros brancos. São os visitantes do jardim que misturam as cores com os seus olhos. E a experiência é diferente consoante olhamos de perto ou de longe, como se de uma verdadeira pintura se tratasse.

 

fullsizeoutput_5729fullsizeoutput_572afullsizeoutput_572bfullsizeoutput_572cfullsizeoutput_572dIMG_11201

O passeio durava já há hora e meia quando, com os sentidos sobrecarregados pelas centenas de flores que à nossa volta explodiam de cor, pelo zumbido das abelhas que por ali andavam a polinizar, pelo chilrear animado dos pássaros, pelas fragrâncias delicadas que sopravam no ar (e faziam aumentar o nosso nível de dopamina) paramos para descansar debaixo de um Chorão.

fullsizeoutput_5723

 

Demos as mãos e trocamos um beijo apaixonado…

 

Eu e tu, tu e eu…

 

Personagens reais dentro de um quadro impressionista a que chamamos “Primavera”.

 

12 Comments

  1. Grata pela partilha, Ana! ADOREI!!!
    Bom fim-de-semana!

  2. Bravo! Mais uma vez uma escrita irrepreensível que nos prende à história (seja ela real ou ficcional) e nos dá a conhecer locais idílicos e factos históricos e culturais.

  3. Gosto muito da obra de Claude Monet
    Deve ter sido uma viagem maravilhosa

    Beijinhos Ana
    Boa Noite

  4. Tem o dom de levar o leitor consigo nas suas viagens.

  5. Muito obrigada Zé!
    Beijinhos

  6. Esta nova forma, mais pessoal e intimista de partilhar as minhas memórias de viagem, tem-me ajudado a “aguentar” melhor o confinamento. Recordar sensações, pensamentos e sentimentos que tive em viagem, faz-me ansiar pelo momento em que vou poder voltar a viajar com toda a liberdade.
    Obrigada pelo apoio Gaivota querida. Fico muito contente que gostes de me acompanhar por estas memórias especiais.
    Beijinho

  7. Foi sim Luísa!
    Foi um passeio maravilhoso

  8. Muitissimo obrigada, pelo comentário e pela visita

  9. Manuela Almeida says:

    Obrigada por ter partilhado o seu passeio com palavras e fotografias que nos dão a ilusão de também termos lá estado. Também aprecio muito Monet.

  10. Eu é que agradeço o seu comentário e a visita ao blog. Muito obrigada!

  11. Senti-me a viajar pelas paisagens. E que bonitas são as suas palavras!
    Grata por esta partilha! Dia bonito

  12. Muitíssimo obrigada!

Comments are closed.